28 Junho 2013, 00:17

Violência e vandalismo das manifestações no Brasil não têm nada de nobre

Brasil, protesto

Se demorou dias até que muitos entendessem que a miscelânia de reivindicações se deu por causa da alienação de décadas e uma crescente insatisfação com tudo que representa as mazelas do Brazilian way of democracy, só agora começa ficar mais claro que a violência e o vandalismo que marcam as manifestações de rua também pegaram carona com intenções muito menos nobres. O movimento contra o aumento das tarifas mostrou que era possível levar muita gente às ruas e se fazer ouvir, abrindo caminho para outros pleitos, da mesma forma que vândalos e até criminosos perceberam que poderiam dar vazão aos seus instintos no meio das multidões.

É verdade que dois gatilhos foram acionados - a radicalização de alguns grupos nas primeiras ondas de protestos e a participação oportunista da militância dos partidos de esquerda e extrema-esquerda, até que o governo federal também virasse vidraça, estimulando as escaramuças com grupos que não queriam presentes as bandeiras partidárias.

No primeiro caso, ainda contou com a exacerbação da violência desproporcional das despreparadas (contra distúrbios de rua) polícias militares. Até que a pressão contra a repressão policial fez os governadores mandarem as tropas evitar a pancadaria, as balas de borracha e o gás lacrimogênio, recuo este que igualmente abriu espaços para a entrada em cena da turba antissocial.

Tentar achar um leitmotiv ideológico-político e justificável para os distúrbios violentos que se espalham feito rastilho é mera especulação. Talvez sociológico seja possível, como pano de fundo: o Brasil é uma sociedade injusta, com bolsões e cinturões de pobreza em qualquer cidade, com farta munição para gerar desassistidos sem ideologia, entre os quais os criminosos plantam raízes. E o Brasil é um país violento, sim, e os números de criminalidade comprovam, a despeito do estereótipo de bonachão que o brasileiro fez de si mesmo e que o mundo comprou.

São esses que agora protagonizam a maioria dos casos de vandalismo, saques e outros crimes. Como enquanto, a comunidade da Rocinha, a maior favela carioca, no começo da semana foi às ruas pedir melhorias no morro, um grupo deslocado de vândalos ateava fogo às lixeiras. Ou como quando, no mesmo dia, do outro lado do Rio de Janeiro, manifestantes fecharam a Via Amarela reivindicando melhores condições de transporte nos abandonados subúrbios, e bandidos aproveitaram para fazer arrastão nos carros parados no congestionamento (a ação policial nessa operação resultou em 10 mortes, sendo dois inocentes).

Misturados com a multidão pacífica, com a sensação de que estão protegidos – quem tem coragem de enfrentá-los? – esses grupos aproveitam-se do momento histórico que o Brasil vive. Há também os desgarrados, isolados, pertencentes ou não a alguma fação ou partido, que vão no vácuo expor seus recalques e exibicionismo.

Vem sendo flagrante igualmente a participação violenta de skinheadse outros denominados de extrema-direita, bem como um grupo autodenominado anarquista, nos dois casos em São Paulo. São outros que vivem em guetos e aproveitaram covardemente a oportunidade para atacar, pois isolados apenas atacam nas sombras algum pobre coitado caído bêbado em algum ponto de ônibus, tal qual vem sendo registrado em várias cidades do Sul e Sudeste.

Ora, os primeiros, no Brasil e no mundo, são um bando de baderneiros, quando muito alinhados a supremacistas, que pregam o anticomunismo sem saber direito do que se trata. Dos pseudoanarquistas, nem há muito o que falar, a não ser que eles nada têm daquilo que foi defendido por Mikhail Bakunin, Errico Malatesta e Pierre-Joseph Proudhon.

O rastro de destruição gratuita deixado até o momento é muito maior, mas que o Brasil está vivendo seu momento de Praça Taksim e Ocupe Wall Street é inegável, com chances de dar melhores resultados do que o movimento de Istambul e de Nova York, guardadas as devidas proporções.

A opinião do autor pode não coincidir com a opinião da redação.

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