13 Setembro 2013, 22:03

O gigante acordou: manifestações no Brasil vistas por um jornalista

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Nosso correspondente no Brasil comenta a visão das "Metamorfoses Brasileiras" do jornalista Guilherme Fiuza.

Hoje voltaremos à análise das "Metamorfoses Brasileiras", reunião preparada no Ibmec pelos mais avançados representantes de diferentes esferas de atividade. Falaremos sobre a opinião das metamorfoses de Guilherme Fiuza, columnista da revista Época e do jornal o Globo, autor dos livros "3.000 Dias no Bunker", "Amazônia" e "20º Andar".

O filme "Meu Nome Não É Johny", baseado no livro de Guilherme Fiuza, tornou-se vencedor do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2009, mas antes de tudo ele é jornalista. Há uma característica muito especial que destaca os jornalistas dos cientistas: um cientista, realizando seus estudos, cria uma teoria subordinada aos dados que ele recebe. O jornalista não cria teorias – a sua tarefa é descrever a vida como ela é e, por vezes, apresentar a sua opinião, mesmo que seja contrária a quaisquer teorias.

Diretor Académico do Ibmec Fernando Schuler falou sobre Guilherme:

"Esta figura é muito emblemática no Brasil contemporâneo nas questões culturais, políticas, econômicas... Escritor, jornalista, observador do país..."

É isso mesmo! Com a palavra Guilherme Fiuza que, aliás, começou a sua intervenção a partir de coisa agradável:

"Eu vi na CBN uma notícia. A CBN tem uma coisa chamada "Boa Notícia CBN". É que eu entrei na direitoria de jornalismo. Na CBN que é a minha amiga Mariza Tavares. Falei: "Você dá uma boa notícia, a partir dos princípios que restam no fundo". Eu acho que eu bem conheço um que tem a boa vontade de aparecer o positivo. É lógico que mais notícias que vão mais nos perturbar de alguma forma que elas são mais dinâmicas. E quando está tudo bem, tudo calmo, como diz Sérgio Brigadeiro, não tem notícia... A boa notícia da CBN era que o Brasil subiu a posição no ranking de felicidade da ONU. O Brasil é hoje... eu fico muito honrado de trazer, mas isso é a boa notícia... A partir de hoje o Brasil é 24º no ranking da felicidade das Nações Unidas..."

Entretanto, a felicidade é uma categoria muito relativa. Todos nós sabemos sobre as contínuas manifestações que passam no Brasil já por alguns meses. Porque? Essa questão preocupa muitos observadores. Ouçam a versão de Gulherme Fiuza. O Brasil teve a imagem de um país bem tranquilo...

"E isso foi saudado de várias maneiras com uma frase que se ouviu muito. Foi "O gigante acordou", ou seja, a impressão de que – o Brasil, esse país amistoso, esse país cordial, esse país que muitas vezes é visto como um país acomodável, supostamente, teria despertado para mudar. Aí, eu já começo a perguntar, para mudar o que? "O gigante acordou" – entre aspas, e imprensa, o público, formadores de opinião, professores, começamos a ouvir com frequência, num tom assim meio ameaçador, quanto aos governantes, quanto aos políticos, no seguinte sentido. O Renan Calheiros pega um voo da FAB para ir a um casamento na Baía. Aí você vê pessoal escrevendo no jornal, criticando as ruas: "Não entendeu o recado das ruas". E o presidente da Câmara no Jogo da Copa das Confederações, no Rio de Janeiro, também no avião da FAB, trazendo a namorada, não sei quê. Aí aparecem as vozes críticas: "Não entendeu o recado das ruas!".

Pode o Brasil contagiar a Rússia?

Escrevi um artigo no Globo, já um tempinho atrás, cujo título é "O gigante fala do Rio" onde eu começava a perguntar o seguinte: "Mas, afinal, alguém pode me dizer – qual é o recado das ruas?" Escrevi um artigo é claro que é para as conversas, mas foram milhões de pessoas no Brasil todo que fecharam a rua, quebraram, e qual é o recado: a pessoa está na rua protestando contra o quê, querendo o quê, exigindo o quê? Isso não ficou claro e nem consegue dizer exatamente e muito menos os supostos alvos dessa pressão. Quero fazer uma ressalva porque a minha fala, a minha escrita é sempre muito crítica em relação ao Governo Federal, gostaria de fazer ressalva de que não tinha nehuma simpatia partidária, nem tenho, nem nunca tive.

É natural para um jornalista: na guerra ele não pega arma, na política ele não tem simpatias partidárias.

"Olhar para esse movimento com muita atenção, muito meticuloso é muito importante no Brasil hoje. Eu também notava em uma reunião social, que não é política, nem social porque pessoas se reuniam para discutir futebol, coisa meio religiosa e tal. Mas tinha uma moça muito bonita de 25 anos que está participando de manifestações e entra naquela discussão sobre Black Bloc. E mal você faz a primeira crítica, ela já vem discutir de uma maneira muito febril, e aí não consigo mais recuar, por isso que é melhor não começar. E falei com muita gentileza com ela, mas um pouco isso que acho que nós temos que falar aqui. Então, as pessoas começaram a ir para as ruas porquê? Por um lado, tem essa sucursal de movimentos que nasceram nos Estados Unidos. Muito conhecido o Occupy Wall Street e os Black Blocs, não é preciso definir aqui. Tem um tipo de técnica de mobilização nesses movimentos, e que algumas pessoas no Brasil prestaram atenção, foram reproduzidas. Até aí é muito interessante! A dificuldade de mobilização no Brasil no últimos anos. Já tinha momentos em que seriam importantes manifestações públicas e tal, é também um problema. Então, começou a ficar interessante que pessoas, realmente, antes se articulassem em São Paulo que é movimento de pessoas realmente se articulassem, classe média. Estamos a falar do conteúdo das reivindicações que estão nas passagens de ônibus. O primeiro ponto que surgiu, como reivindicação no momento e tal. Essa foi a primeira centelha. E a partir daí é que foi crescendo e de repente tinha um milhão na rua e você não sabia bem que movimento era aquele, e nem sabia bem como inventar aquilo. Só sabia que tinha nascido da questão das passagens de ônibus, mas que, evidentemente, alí a gente viu uma série de outras demandas agregadas e tal ao movimento."

Os Black Bloc e o anarquismo sem causa

Depois das passagens de ônibus surgiram os temas da educação e assistência de saúde, mas mal se pode falar sobre a plataforma sólida do movimento de manifestações no Brasil em 2013. Isso nos prova Gulherme Fiuza na sua intervenção que vamos continuar da próxima vez.

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