17 Janeiro, 08:57

O "rolezinho" e a nova cara de um Brasil imprevisível e interessante

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As redes sociais são um sucesso no mundo, mas arrisco dizer que gozam de especial popularidade entre os brasileiros. Um relacionamento tão estreito quanto meteórico e que, nos últimos meses, tem impactado o cenário político nacional, tornando-o sem dúvida muito mais interessante e imprevisível.

Foi assim em 2013, quando da primeira grande demonstração de força de aplicativos como Facebook, Youtube e Twitter por aqui. Falo da onda repentina de manifestações motivada pelo aumento das tarifas de transportes coletivos - movimento que ainda ressoa no país e muito provavelmente ecoará com força nos próximos meses, na esteira de uma impopular Copa do Mundo de futebol e uma eleição ainda imprevisível para as posições federais e estaduais do executivo e do congresso.

Mas enquanto isso ainda é previsão, coisa apenas passível de acontecer, o Brasil inicia 2014 no embalo do "rolezinho", uma nova modalidade de mobilização, também organizada pelas redes sociais e que, nos últimos dias, ganhou de assalto o interesse das pessoas.

O "rolezinho", sejamos justos, começou no final do ano passado, precisamente no dia 7 de dezembro de 2013. Mas atingiu seu apogeu na agenda de discussões há coisa de poucos dias, com direito a debates públicos pela Internet e opiniões balizadas por cientistas sociais em veículos de mídia tradicional.

Não vou gastar tinta para explicar o que é um "rolezinho". Nem precisa. Além de fartamente noticiado, o movimento é simples demais: um encontro agendado entre jovens para ouvir música e fazer barulho no shopping center. Mas o que chama a atenção é a resposta da população, daqueles que não têm perfil para a aderir ao "rolezinho". O que depõe claramente sobre como pensa uma parte do povo.

O primeiro evento desse tipo aconteceu em um destino de compras tradicionalmente frequentado por consumidores de baixa renda de São Paulo, no bairro de Itaquera, a pouquíssimos metros do local onde se constrói o estádio de abertura da Copa do Mundo. Milhares de jovens atenderam ao convite e lotaram o estacionamento do shopping. Teve confusão com os seguranças e alguns casos de assaltos realizados dentro do centro de compras.

Dali pra frente, outros eventos semelhantes foram realizados, com e sem confusão, mas o negócio seguia relativamente à margem do interesse nacional até que recentemente um incidente foi determinante. Na iminência de receber um "rolezinho", um shopping de luxo da cidade recorreu à justiça e conseguiu dela liminar improvável, expediente que autorizou o espaço a organizar uma triagem de seus clientes. Na prática, seguranças e políciais militares e civis (estes munidos de fuzil de assalto Colt M4A1) postaram-se plantados na porta de entrada do shopping escolhendo quem entrava ou não no local.

Foi como jogar farinha no ventilador. No outro canto da cidade, novamente em Itaquera, a polícia reprimia mais uma tentativa de "rolezinho" no shopping center local, dessa vez com balas de borracha e spray de pimenta. Como resposta, os militantes do Facebook retomaram a carga de denúncias contra a polícia. Alguém disse que a manifestação popular era como massa de bolo, bastava bater para crescer. E rapidamente estava armado novamente o clima de indignação que galgou durante a crise de junho todo o Brasil.

No momento em que escrevo essas linhas, 300 manifestantes convocados por movimentos populares marchavam em direção a um shopping da zona sul de São Paulo para armar o primeiro "rolezão", em defesa da moradia. Sinal claro de apropriação de um evento relativamente simples por grupos políticos. Outros dez "rolezinhos" estavam armados para o sábado do dia 18, em São Paulo e no Rio de Janeiro, convocados por gente comum como apoio ao que se registrou em São Paulo.

De fato, o clima passou de brincadeira de adolescentes a tensão social em muito pouco tempo, prova de que uma insatisfação geral permanece em alerta entre as pessoas. Uma fagulha de reprovação, o caldo ferve e entorna.

Dilma já está preocupada com isso. Ciente da incapacidade da polícia metropolitana em se relacionar com tumultos, já se movimenta para tentar resolver a situação, inclusive com a possibilidade de convidar as lideranças do "rolezinho" para uma conversa. Mas a verdade é que nem ela sabe muito bem o que fazer. Dilma está claramente tentando se adiantar aos fatos, numa tentativa de caminhar por vias distintas das que seguiu em 2013, quando foi duramente criticada pela demora em se manifestar publicamente e procurar resolver o problema.

Agora há pouco, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, homem responsável em dialogar com grupos sociais e políticos, defendeu a convivência dos lojistas de shoppings com os "rolezinhos". Disse que os "conservadores deste país" têm de se conformar com o fato de os direitos agora serem iguais para todos e criticou a concessão de liminares para conter os movimentos.

O ministro não está errado. Assim como também não erra Geraldo Alckmin, governador paulista, que ressaltou que o "rolezinho" não é caso de polícia, desde que não aconteçam tumultos. Todos eles, inclusive acadêmicos e observadores internacionais, sabem que o que está em jogo é a atividade de um grupo de jovens acostumados com a sobrevivência marginal, encastelada na periferia pobre de grandes cidades, e que agora encaram o poder de aglutinação que uma simples plataforma de relacionamento, gratuita e tecnicamente fácil de se operar, oferece. Ao lado deles, quietinho e esperando por uma oportunidade de aparecer, há uma infinidade de grupos insatisfeitos, que esperam por tumulto para darem o ar de sua graça. Sem nunca se esquecer dos black blocs, com todo o potencial destrutivo que são capazes. Como bem observa o leitor, o Brasil não é mais o mesmo.

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